- Primeiro levantamento nacional representativo sobre o que os brasileiros sabem, pensam e fazem em relação à prevenção do câncer, entrevistou 6,5 mil adultos em todo o país.
- Enquanto o fumo é amplamente conhecido como um fator de risco para câncer, outros fatores como consumo de produtos ultraprocessados e embutidos, inatividade física, sobrepeso e obesidade são menos associados à doença pela população.
- Dados fazem parte do relatório Mais Dados Mais Saúde — Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, realizado por Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do INCA.
São Paulo, junho de 2026 — O Brasil deve registrar 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Ainda assim, 27% dos adultos brasileiros não sabem que a doença pode ser prevenida. O dado faz parte do relatório Mais Dados Mais Saúde — Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, realizado por Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive e parceria técnica do INCA. Esse é o primeiro levantamento nacional representativo sobre o que os brasileiros sabem, pensam e fazem em relação à prevenção do câncer.
O câncer resulta da interação complexa entre diversos fatores, com estimativas científicas que indicam que até 40% dos cânceres poderiam ser evitados com mudanças de comportamento e da exposição ambiental. “Nesse cenário, fica clara a importância de entender as lacunas entre o conhecimento e as práticas da população sobre os fatores de risco para o câncer. A crença de uma parcela da população de que a doença é inevitável pode representar uma barreira silenciosa à adoção de comportamentos protetores. Entender estas lacunas pode direcionar efetivamente os esforços de conscientização, estímulo ao autocuidado e navegação das pessoas no sistema de saúde, cruciais para uma agenda de prevenção apoiada em políticas públicas intersetoriais”, reforça Evelyn Santos, gerente de Investimento e Impacto Social da Umane, que lembra que “só o conhecimento não basta, precisamos olhar para os ambientes onde as pessoas vivem e fazem as escolhas que impactam sua saúde diariamente, para integrar ações desde a regulação e taxação de alimentos nocivos até os sistemas de saúde, proteção social e educação, visando o bem-estar e qualidade de vida da população”.
A pesquisa ouviu 6.566 adultos (18 anos ou mais) de todos os estados brasileiros entre setembro e outubro de 2025 e mostrou que, no topo da lista de conhecimento da população está o fumo, com 90,5% dos respondentes dizendo saber que fumar causa câncer, seguido por herança genética (89,4%) e exposição solar excessiva (88,3%).
As bebidas alcoólicas, os alimentos embutidos, como presunto, salsicha e peito de peru defumado, e os produtos alimentícios ultraprocessados, como macarrão instantâneo, salgadinho de pacote e sorvete, são reconhecidos como fatores de risco para câncer por 71,3%, 70,7% e 65,6%, respectivamente. Eles não estão entre os mais conhecidos, mas o risco já é mais assimilado do que o de outras exposições também relacionadas ao aumento de risco de desenvolver diversos tipos de câncer e que não são percebidas com preocupação por cerca de metade da população. É o caso do excesso de peso (sobrepeso e obesidade), conhecido como fator de risco para o câncer por 54,1% da população. O consumo de bebidas adoçadas, como refrigerantes, a baixa ingestão de frutas e verduras e o sedentarismo, também são menos conhecidos, sendo associados ao câncer por apenas 55,3%, 53,3% e 48,3%, respectivamente. Já a carne vermelha é reconhecida como um item que aumenta a chance de desenvolver câncer por menos de três em cada dez brasileiros (27,5%).

“As informações acima mostram que fatores de risco com ampla cobertura midiática e histórico de campanhas públicas, como o tabagismo e a exposição solar, são amplamente reconhecidos pela população, enquanto fatores igualmente relevantes do ponto de vista epidemiológico necessitam de mais conhecimento como fatores de risco preveníveis. Destaca-se, ainda, a elevada proporção de brasileiros que reconhece a herança genética como fator de risco, dado que, se não contextualizado adequadamente, pode reforçar a percepção fatalista do câncer como uma condição predeterminada e inescapável”, comenta Luciana Sardinha, diretora adjunta de Doenças Crônicas não Transmissíveis da Vital Strategies.
A pesquisa também revelou percepções equivocadas entre os brasileiros: 61,3% acreditam que tomar suplementos de vitaminas e minerais reduz o risco de câncer. De acordo com a área técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do Instituto Nacional de Câncer (INCA), não há evidências de que suplementos de vitaminas e minerais previnam a doença. A recomendação é obter nutrientes protetores por meio de uma alimentação saudável e variada, rica em alimentos in natura e minimamente processados, em vez de produtos industrializados. O órgão ressalta ainda que suplementos só devem ser indicados por profissionais de saúde e em situações clínicas específicas de insuficiência ou deficiência, evitando gastos desnecessários e uma falsa sensação de proteção estimulada pelo marketing da indústria de suplementos alimentares.
Outro fator que merece destaque é o aleitamento humano. Apesar dos seus benefícios para o bebê e para quem amamenta, quatro em cada 10 respondentes ainda não o reconhecem como fator de proteção para câncer de mama.
“Um dos principais diferenciais deste estudo foi possibilitar uma análise mais aprofundada sobre a percepção da população em relação aos fatores de risco para o câncer, tema estratégico para o INCA. A contribuição técnica do Instituto trouxe para a pesquisa a experiência acumulada na produção e interpretação de evidências científicas relacionadas à prevenção e ao controle do câncer, permitindo uma leitura mais qualificada dos resultados e de suas implicações para a saúde pública do Brasil”, afirma Luciana Grucci Maya Moreira, chefe da Área Técnica de Alimentação, Nutrição, Atividade Física e Câncer do INCA.
Comportamento sobre alimentação
Além de questões sobre o conhecimento dos fatores de risco, a pesquisa também perguntou sobre o comportamento da população com relação ao consumo de alimentos embutidos, produtos ultraprocessados, carne vermelha e bebidas adoçadas. Os entrevistados podiam responder se consumiam esses produtos e se tinham ou não a intenção de reduzir o consumo.
Aproximadamente 45% dos indivíduos relataram consumir produtos ultraprocessados e ter tentado reduzir o consumo, proporção superior à observada entre aqueles que não consomem (33%) e à daqueles que relataram consumir sem tentativa de redução (cerca de 15%). Padrão semelhante foi observado para as bebidas adoçadas: aproximadamente 53% relataram consumo com tentativa de redução, 27% não consomem e cerca de 15% informaram consumir sem tentativa de redução.
Quando se trata de embutidos, os resultados foram bem semelhantes aos dos produtos ultraprocessados: cerca de 45% relataram consumo com tentativa de redução, aproximadamente 33% informaram não consumir e cerca de 15% relataram consumir sem tentativa de redução.
Em relação à carne vermelha, verificou-se maior proporção de indivíduos que relataram consumir sem ter tentado reduzir (cerca de 45%), seguida por aqueles que consomem e tentam reduzir (aproximadamente 40%), sendo o não consumo menos frequente (em torno de 10%).
“Esse padrão é consistente com as proporções mais baixas de reconhecimento da carne vermelha como fator de risco para o câncer. Esses dados sugerem uma lacuna de informação sobre percepção de risco por parte da população, o que merece especial atenção no contexto brasileiro, país que figura entre os maiores produtores de gado do mundo”, reforça Luciana Sardinha, da Vital Strategies.
Os jovens de até 24 anos são os que mais consomem esses produtos sem a intenção de reduzir: 32,3% têm esse comportamento com relação aos ultraprocessados, 24,4% quando se trata de bebidas adoçadas, 29,5% quando perguntados sobre embutidos e alarmantes 49,1% têm esse comportamento com carne vermelha.

Por outro lado, 86,3% da população afirma consumir frutas, legumes e verduras. E entre os que não consomem, 8,3% têm intenção de começar. O comportamento dos jovens também chama atenção nesse contexto: cerca de 80% dizem consumir esses alimentos, sendo a faixa etária com mais respondentes com a intenção de aumentar o consumo (16,5%). Importante destacar que a pesquisa não avaliou se a população consumia a quantidade recomendada de frutas, legumes e verduras, restringindo-se apenas à análise da presença ou ausência do consumo desses alimentos.
Sedentarismo
Em relação ao sedentarismo (inatividade física), quando se trata de comportamento, 52,2% praticam atividade física e, entre os que não praticam, 39% querem começar. Foram identificadas diferenças segundo a renda mensal onde indivíduos que recebiam até R$ 2.000 (45,5%) apresentaram menor proporção de conhecimento sobre o sedentarismo como fator de risco quando comparados àqueles com renda igual ou superior a R$ 10.000 (59,6%).
Excesso de peso
Já quando se trata de peso corporal, 48,8% se declaram com peso saudável. Entre os que reconhecem ter excesso de peso, 31% afirmam estar fazendo algo a respeito, mas esse número cai para 22,9% entre pessoas com renda menor que R$2.000, contra mais de 40% entre os de renda acima de R$ 3.000.
Esses dados trazem um alerta importante sobre como condições sociodemográficas, como renda, afetam de maneira desigual o comportamento ou a intenção das pessoas de adotar hábitos mais saudáveis. “A inatividade física não é questão de escolha individual: falta de espaços públicos seguros, jornadas de trabalho longas e acesso desigual a áreas de lazer são parte do problema. Isso também se reflete ao acesso desigual a alimentos saudáveis, por exemplo. Portanto, políticas públicas que façam escolhas mais saudáveis mais fáceis são fundamentais, como a taxação de produtos que fazem mal à saúde, como ultraprocessados e álcool, ao mesmo tempo em que se barateia alimentos saudáveis, e disponibilização de espaços seguros e acessíveis para práticas de atividade física”, ressalta Luciana Sardinha.
Bebidas alcoólicas
Quando se trata de consumo de álcool, substância associada a pelo menos oito tipos de câncer, o conhecimento é consideravelmente menor do que com relação ao tabagismo, com 71,3% dos brasileiros relatando conhecer o álcool como fator de risco para câncer. Sobre comportamentos, metade da população (50,1%) afirma não consumir bebidas alcoólicas e, entre os que consomem, 32,5% já tentaram reduzir o hábito. Os jovens de até 24 anos são os que menos têm a intenção de reduzir o consumo: 16,9% dizem beber e não ter a intenção de reduzir o consumo, mesma resposta dada por 8,7% das pessoas de 25 a 59 anos e por 7,1% daqueles com mais de 60 anos.
Sobre o Mais Dados Mais Saúde
O Mais Dados Mais Saúde —Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer é a quarta edição do programa de inovação no levantamento de dados de saúde realizado pela Umane e Vital Strategies, com apoio do Instituto Devive. A coleta de 6.566 questionários ocorreu entre 24 de setembro e 31 de outubro de 2025, com cobertura nacional (todos os 26 estados e o DF), por metodologia 100% digital. Os dados foram ponderados por sexo, idade, raça/cor e escolaridade com base no Censo 2022 (IBGE) e na PNS 2019.
Saiba mais em https://observatoriosaudepublica.com.br/pesquisas/mais-dados-mais-saude/
Sobre a Umane
A Umane é uma organização da sociedade civil, independente, isenta e sem fins lucrativos que apoia iniciativas no âmbito da saúde pública com o objetivo de contribuir para um Sistema Único de Saúde (SUS) mais resolutivo e de melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem no Brasil. Em 2025, a Umane apoiou 35 projetos, realizados de forma colaborativa com 97 parceiros, entre diversos setores da saúde, da sociedade civil e do poder público.
A atuação da Umane se dá por meio de três programas: o de Atenção Integral às Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), com iniciativas de controle dos fatores de risco, rastreamento, ampliação do acesso à saúde e ao monitoramento dos fatores de risco na Atenção Primária à Saúde; o Fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) como ordenadora do cuidado no SUS, por meio do apoio a iniciativas que visem melhorias operacionais, de produtividade de equipes, de integração de serviços e da incorporação de novas tecnologias ao sistema de saúde e o programa Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, financiando programas que acompanhem e monitorem desfechos desfavoráveis durante a gestação e as condições de saúde de crianças e adolescentes no contexto das Doenças Crônicas Não Transmissíveis e dos fatores de risco. Acompanhe a Umane nas redes sociais: LinkedIn e Instagram.
Sobre a Vital Strategies
A Vital Strategies é uma organização global de saúde que acredita que todas as pessoas devem ser protegidas por políticas e sistemas de saúde eficazes e equitativos. Nossa equipe trabalha com governos e a sociedade civil para conceber e implementar estratégias e políticas baseadas em evidências para enfrentar alguns dos maiores desafios mundiais de saúde pública. O resultado são milhões de pessoas vivendo vidas mais longas e saudáveis no mundo todo.
Sobre o Instituto Devive
O Devive atua como filantropia grantmaker, apoiando iniciativas que previnem doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), fortalecem a rede de atenção primária e ampliam o acesso a diagnóstico e tratamento para quem mais precisa. Trabalhamos em parceria com gestores públicos, organizações da sociedade civil, pesquisadores e empreendedores sociais para transformar evidências em políticas e práticas de saúde que reduzam desigualdades no país.
Sobre o INCA
O Instituto Nacional de Câncer (INCA), órgão auxiliar do Ministério da Saúde, é responsável pelo desenvolvimento e coordenação das ações integradas para a prevenção e o controle do câncer no Brasil. A instituição atua nas áreas de assistência, ensino, pesquisa, informação, prevenção e vigilância, apoiando a formulação de políticas públicas e a produção de conhecimento técnico-científico para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). Por meio da Coordenação de Prevenção e Vigilância (Conprev), o INCA desenvolve ações voltadas à promoção da saúde e à prevenção do câncer, incluindo iniciativas relacionadas à alimentação, nutrição, atividade física e redução de fatores de risco associados à doença.
Mais informações
Analítica Comunicação – Assessoria de Comunicação da Vital Strategies
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